sábado, 14 de abril de 2012

Relato do encontro do dia 04/04/2012

Presentes:
Andréia, Edna, Janey, Mafê, Regina, Simone e Vanessa.
Esperávamos pela presença do professor Clécio - que não pôde estar conosco.
Dedicamos o encontro à leitura das inúmeras postagens feitas pelas participantes do grupo:
Andréia, Mafê e Simone.
Entre aranhas, lagartixas e outros bichos (rsrs!) - mais uma vez nos deparamos com indagações sobre como conseguirmos atender aos conteúdos propostos pelas Diretrizes...
Regina fala das inúmeras mudanças que presenciou no bairro, na escola, na sociedade (ao longo dos últimos 20 anos): vemos que a escola melhorou (em termos materiais), as famílias tem + poder aquisitivo... Mas as dificuldades em alfabetizar, de conviver pacificamente (sem agressões, sem violências) permanecem...
Regina diz que se aposentará no próximo ano, mas como ainda não conseguiu encontrar uma "receita" para estes problemas, deixará esta missão para as "mais novas"...
Mafê fala das tantas crianças com suas diferentes questões (falta de limites, ausência de apoio familiar, excesso de violência, agressividade)...
E do grande esforço que ela têm empenhado em “ouvi-los”, propor atividades diferenciadas...

Este relato foi escrito pela Janey no dia 04/04/2012 e está sendo postado hoje, 14/04/2012 - devendo ser editado pelos demais participantes do grupo - conforme combinado no último encontro (do dia 11/04). 

O que faz você feliz?

Há cerca de duas semanas as Professoras Mônica e Claudinha passaram pelas salas das turmas da manhã, juntamente com as meninas que participam do Projeto Reciclando com Arte, para pedir a colaboração dos pequenos em trazer para a escola pilhas e baterias usadas para o descarte adequado.
Encontrei aí um bom motivo para a produção de um texto com real uso social, para além das atividades escolares diárias que muitas vezes não fazem relação com a vida das crianças.
Geralmente os pequenos esquecem os recados que devem dar a família e um bilhete ou um folheto informativo se faz necessário.
Propus a turma então que coletivamente escrevêssemos um texto para lembrar as famílias de guardar as pilhas e baterias usadas para jogar na escola e não no lixo comum.
Com esta turma toda proposta é muito bem aceita.
Alguns dias depois comecei a aula relembrando a tarefa do texto com o qual nos comprometemos com as professoras.
Um dos meus alunos, o Emanuel, é um menino que desenha muito bem, pois sempre recorre a detalhes e a incorporar na ilustração elementos que surpreendem a todos.
Enquanto fazíamos o texto coletivo, pedi que Emanuel então pensasse e fizesse um desenho que fosse adequado para a informação que precisavámos transmitir.


Em casa formatei o folheto e para mim nada mais natural do que registrar a autoria da produção, tanto do texto escrito quanto da ilustração.
No entanto, a reação provocada foi muito além do que eu esperava.
No final da aula quando entreguei o folheto a todas as crianças para que levassem para casa, o Emanuel veio até mim e disse:
"- Pro., você colocou meu nome aqui?"
Eu disse que isso era lógico (pelo menos para mim) porque sempre que produzimos algo, temos que colocar o nome de quem fez.
Com um largo sorriso em seu rosto, colocou o papel de encontro ao peito como se fosse a coisa mais valiosa e querida do mundo, disse que não via a hora de chegar em casa para mostrar a sua mãe e em seguida me deu um forte abraço em forma de agradecimento.
Fiquei muito feliz em ter ajudado este menino a se sentir importante, participando de algo que toda a escola teria acesso e se reconhecendo como autor, no entanto acredito que conhecendo a sua família como conheço,  o crédito desta alegria também é dela, porque são pais que ouvem, pesquisam, respondem e discutem as atividades produzidas na escola dando muito valor a curiosidade e criatividade de seu filho.
Parece que é mais fácil falarmos sobre aquilo que não dá certo e que nos leva a dúvidas constantes. Mas com certa frequência consigo ouvir também acontecimentos que nos motivam e nos fazem mais felizes.
O Emanuel ficou feliz em ver seu nome escrito no papel.
Certamente sua família ficou feliz ao vê-lo tão alegre.
Eu fiquei feliz por ter ajudado a produzir esta alegria.
Agora me diz, o que faz você feliz?

                                                                             Simone Franco

domingo, 8 de abril de 2012

Relato da minha turma

A turma é um pouco agitada, as vezes atrapalhando o andamento das atividades e a transmissão dos conteúdos. Muitos alunos são lentos na realização das atividades e outros rápidos até demais. Preciso ter muitas atividades para os rápidos e não deixar de contemplar os mais lentos.

Tenho alunos escrevendo e lendo tudo, outros escrevendo palavras simples e começando a construção de frases, outros sabem todo o alfabeto e estão começando a escrever palavras simples, outros sabem um pouco do alfabeto e outros que não sabem nem as vogais, copiam apenas o seu nome sem nenhuma leitura das letras. Fica muito difícil trabalhar com uma turma assim.

Não existe mais esta historia de seguir com a turma para dar continuidade ao trabalho, a turma que se forma no ano seguinte não se parece em nada com a do ano anterior, recebemos alunos no 2º, no 3º, no 4º... ano sem ter freqüentado o 1º ano, sem conhecer o alfabeto, e pior ainda sem saber o que é letra. Recebemos também alunos de escolas próximas e de outros Estados, na maioria das vezes os que recebemos não estão no mesmo nível de aprendizagem dos que alfabetizamos. A rotatividade de crianças é muito grande, vão e vem a todo instante, vão os alfabetizados e vem os para alfabetizar.

Nesses vinte anos que trabalho como professora na Rede Municipal de Campinas, sendo dezoito deles na Escolinha Branca (nome carinhoso da Escola), muitas mudanças aconteceram, mudanças estas para melhor, a escola ficou bonita e bem equipada, o poder aquisitivo das famílias do bairro melhorou bastante, os profissionais da educação e os governantes tentaram e continuam tentando criar novos caminhos, no entanto parece que estamos caminhando em passos de tartaruga, não conseguimos dar conta de toda essa demanda e alunos continuam saindo da escola ou terminando o Ensino Fundamental sem estarem alfabetizados.

Tentamos achar os culpados: os pais que não cuidam das crianças? Os professores que tentam ser de tudo um pouco? Os gestores que vivem apagando incêndios? Os governantes que estão preocupados apenas com seus interesses? A sociedade violenta, desumanizada e sem valores? Quem são os culpados? Estamos longe de saber, enquanto isso temos nossos alunos para ensinar, alfabetizar! O que fazer? Estudar? Pedir ajuda? Chorar? Vou tentando tudo que sei e que estou aprendendo... Onde vou chegar? Não sei!

Regina Vasconcelos

terça-feira, 3 de abril de 2012

Os bichos

Ai Jesus!
A aranha, a lagartixa, e quantos outros pra nos fazerem lembrar que somos nada, ou somos tudo?!...
Fiquei meio desesperada com os relatos da Simone e da Mafê. Ando meio descontrolada esses dias. Acho que estou precisando me tornar um inseto, para, quem sabe, na minha insignificância, achar minha importancia na vida dos meus alunos. O que realmente importa? ... Como já lembramos outras vezes: onde ficamos na vida dessas crianças? Que importancia temos? Será que vale a pena? Aaahhhhh! Quantas questões...

Planejar? Pra quem? Para quê? A musica, ou as musicas, as moralidades, os valores,...

Bom, estou só retornando. Pra relaxar um pouquinho to colocando um link de uma violonista japonesa, Kaori Muraji, se der, assistam, ou ouçam um pouquinho enquanto trabalham. Também tem uma dupla brasileira: Siqueira e Lima. O novo para nós também.

Pensando, pensando, pensando,...

Andréia

A lagartixa




Mafê, 17/09/2011 

Eu já estava sensibilizada e com o olhar desanuviado por alguns acontecimentos importantes na semana: como ver Josias dançando break e fazendo o maior sucesso!

Jô, dá um trabalhão vez por outra: chora aos gritos, tampa os ouvidos e vira “estátua” quando quer algo que não pode ter na hora.

Algo surreal, só vendo... Faltou muito, muito até semanas atrás. A mãe pediu demissão do emprego para diminuir as faltas dele. Josias tem melhorado desde então, mas...

Em situações em que é contrariado, depois de chamar atenção para si, de alguma forma, costuma abrir-se para a conversa quando chamado ao diálogo comigo e só comigo. Quando digo, por exemplo ( e geralmente longe do grupo):

- É a prô que está aqui... para de fazer isso, pois me machuca... O que eu te fiz? Mereço chute? Mereço que você me ignore?...

Daí começam a lembrar dos motivos da braveza e consigo ( na maioria das vezes, mas nem sempre) conversar calmamente com ele.

Jô, estava fora da sala, tinha saído para beber água, quando ouço um “forfé” no corredor.

Abro a porta e dois meninos o seguravam pelos braços, enquanto ele se debatia.

Pedi que o soltassem e eles me disseram que Josias jogava pedras no teto e que assim quebraria as lâmpadas.

Os dispensei e disse que Josias me contaria o que estava acontecendo.

Jô, com voz e olhar baixos, percebendo que fez besteira, disse:

- Eu estava tentando acertar perto da lagartixa prá ela ir comer os mosquitos! Eu não ia acertar a lagartixa!

E me levando até a lixeira da sala bateu, bateu até subirem muitos mosquitinhos...

Eu, sem saber o que dizer, falei:

- Senta, Jô, senta...

Como eu explicaria que basta trocar o sanito do cesto? Afffff... Tão mais legal ir buscar uma lagartixa! E a turma já me solicitava. Dei por encerrado o assunto da lagartixa.

E mais uma vez pensei, que poderia ter dado uma bronca enorme nele se não o tivesse ouvido. Tem sido difícil manter a “espinha ereta e o coração tranquilo” para ouví-los em meio à tanta violência...

É um exercício constante, a cada minuto, lembrar que entender as lógicas de ação deles para organizar e reorganizar o trabalho é a minha prioridade número UM!
Estou há dias tentando escrever sobre as questões que me perseguem ao longo desdes 6 anos vivenciando a escola de 9 anos e o ciclo da Escolinha Branca. Sem saber ao certo aquilo que mais me aflige, porque sabemos quantas são as perguntas, críticas e conflitos vividos cotidianamente, encontrei outro dia junto com a Mafê uma bela arquitetura construída na porta da minha sala.


A Aranha do destino
Fernando Pessoa

A aranha do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir.
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.



Minuciosa como somente as aranhas são, observamos que ela já estaria por ali há certo tempo, pois além de sua magnífica teia, um saco de ovos fora depositado cuidadosamente no centro de sua construção.
Comecei a pensar quantas vezes passei por ali e nem percebi que havia uma engenheira séria e compenetrada em seu trabalho, que em meio aos ruídos escolares, ao abrir e fechar de portas e ao olhar displicente de todos, se dedicava aquilo que fora criada para fazer.
Da mesma forma, pensei o quanto muitas vezes passo displicentemente por “nossos” alunos sem atentar aquilo que elaboram e constroem, muitas vezes sem conhecê-los muito bem, muitas vezes sem conhecer suas histórias ou conhecendo-as e julgando-os por isso mesmo.
O andar apressado pelos corredores, as diversas demandas que tento atender a todo tempo, as histórias que não paro para ouvir e o olhar deixado perdido que não encontra o olhar do outro.
É isso mesmo, o tempo, que não temos e que não conseguimos nos organizar para conquistá-lo, as vezes por não julgarmos importante, as vezes por estarmos cansados demais, as vezes pela falta de “TEMPO”.
Fazer de um coletivo escolar um ambiente no qual o trabalho coletivo realmente aconteça, o tempo e o espaço sejam repensados, valorizados, as histórias sejam ouvidas, os olhares trocados, as construções, elaborações mais delicadas sejam percebidas... Talvez assim como a aranha, este seja o trabalho que fomos talhadas pelo destino a fazer e quem sabe juntos neste grupo possamos começar a caminhar nesta direção.


Por Simone Franco

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Relato do Encontro de 28 de março

Neste encontro, estavam presentes: Andréia, Edna, Janey, Mafê, Regina, Simone e Vanessa.
Registro feito pela professora Vanessa:
Inicialmente, explicações sobre o blog e sobre os passos das postagens foram feitas para a professora Edna, que não estava no grupo ano passado.
Uma leitura coletiva do registro do encontro anterior, feito pela professora Mafê, foi feita a fim de retomarmos as atividades propostas. Levanto, agora, algumas das questões daquele registro e que gostaria que refletíssemos, em breve, mais sobre elas: (1)Qual é a relação entre as festas na escola e a cultura local? (2)O que é o mínimo para ser trabalhado na escola com nossos alunos? (3)Como trazer a questão identitária de nossos alunos para o centro de nosso trabalho? (4)Como construir um currículo sensível?
Ao final da leitura, a professora Mafê propôs um exercício: tomarmos o Festival de Música, que ocorre todos os anos em nossa escola e que este ano será no mês de novembro, como um foco para pensarmos e refletirmos sobre essas questões identitárias. O exercício constitui em cada professor analisar o seu planejamento anual e tentar relacioná-lo com o festival.
A proposta deste exercício, cujos resultados devem ser expostos no próximo encontro, agradou a todos os participantes.
A sugestão de desenvolver vídeos com os nossos alunos, feita anteriormente pelo professor Clécio, foi muito elogiada. A professora Edna acha interessante porque é também mais uma utilidade para a sala de informática da escola, sendo, portanto, uma nova ligação do aluno com o ambiente escolar. A professora Vanessa contou que já fez um vídeo com alunos no ano de 2010, por ocasião do curso Pedagogia da Imagem, e que gostou muito dessa experiência.
Por fim, o Festival de Música foi novamente lembrado, pois é importante garantir o seu espaço no planejamento de todos os professores, o que fica difícil se houver muitas outras atividades da escola no mesmo período. "O papel do professor não é só valorizar a cultura local, mas também orientar"(Edna).